

O cardiologista Raul Dias dos Santos Filho, assessor do Centro de Medicina Preventiva do Hospital Albert Einstein e professor da Faculdade de Medicina da USP, explica nesta entrevista a influência dos fatores genéticos no desenvolvimento de doenças coronárias. Qual é o peso do fator genético no aparecimento de doenças do coração? Uma história familiar que apresenta a ocorrência de doenças coronárias precoces tem papel muito importante na avaliação de um paciente. Isso porque um paciente com história familiar precoce de doenças coronárias tem 70% mais chance de ter um problema cardíaco do que quem não tem casos precoces na família. O que significa ter um histórico de doença coronária familiar precoce? São consideradas pessoas com histórico de doença coronária familiar precoce aquelas que tem familiares diretos, ou seja, pai, mãe ou irmãos, que desenvolveram alguma doença desse tipo cedo. Pacientes que tem parentes próximos do sexo masculino, que tenham infartado antes dos 55 anos e, no caso do sexo feminino, que tenham infartado antes do 65 anos. O componente genético é o único fator de risco de doença coronária? Não, não é o único. É importante lembrar que o componente genético pode se expressar como colesterol alto, predisposição maior à obesidade, pressão alta e diabetes. No entanto, existem pacientes que não apresentam nenhuma dessas doenças consideradas fatores de risco, e têm o risco genético. Cerca de 20% dos casos não apresenta esses fatores, mas ainda têm forte história familiar de doença coronária. Certamente existem genes que não conhecemos e que são transmitidos na família levando a um maior risco. É importante conhecer a realidade da família? Toda a vez que se avalia um paciente com histórico precoce é preciso avaliar também a família e levar em consideração os hábitos familiares em relação à comida, cigarro, sedentarismo, entre outros. É uma questão influenciada pelo genótipo e pelo meio ambiente e essa combinação pode antecipar o aparecimento de doenças coronarianas. Uma vez identificado o paciente como um portador de histórico familiar precoce e com alta dosagem de colesterol, testa-se o colesterol da família toda. Eu costumo chamar as famílias para verificar se tem mais pessoas com quadro parecido e sempre tem. Esse é um quadro clássico de hipercolesterolemia familiar e afeta uma em cada duas pessoas desse grupo. O exame é feito em crianças também? Sim. A partir dos dois anos já se pode fazer a dosagem se a família tem histórico precoce da doença. Qual é a probabilidade de a doença coronariana passar de pai para filho? Especificamente em famílias com hipercolesterolemia familiar, a probabilidade de que o colesterol alto passe para os filhos é de 50%. Se não tratados, nessas famílias, as chances são de que 25% dos homens na faixa dos 40 anos tenham infarto. Aos 50 anos, essa possibilidade aumenta para 40%. No caso das mulheres, a probabilidade é de que 25% das mulheres na faixa dos 50 anos tenham infarto. Como é o procedimento dos exames nesse caso? Sempre que tem paciente com história familiar forte é preciso verificar se há fatores de risco presentes. Se eu não acho nenhum sinal em exames mais simples como o de sangue, eu procuro por eles em exames mais especializados como o de imagem das carótidas (vasos sanguíneos que levam sangue do coração ao cérebro) ou do coração (tomografia para avaliar a presença de calcificação coronária), por exemplo. Quem trabalha com prevenção tem que ir atrás dessas informações. É uma avaliação simples. Esses exames permitem ver se o paciente apresenta doenças subclínicas, ou seja, aquelas que ainda não se manifestaram. Dependendo do resultado, eu oriento sobre alimentação, ou trato o colesterol que já apresenta indícios, enfim. Se eu encontro doença subclínica, eu trato esse paciente como se ele já tivesse tido um problema cardiovascular, inclusive com uso de medicamentos. Remédio para pressão ninguém discute. Já se o colesterol for discretamente alterado , o uso é discutível. Eu defendo que se há histórico familiar forte e doença subclínica, deve-se controlar o colesterol com remédio. Esse é um tratamento preventivo? Sim. Tanto o remédio, como a manutenção do LDL-colesterol em níveis muito baixos (no nível de 70mg/dL), inferiores à média normal, que é de 120mg/dL, 130 mg/dL são medidas preventivas. Não dá para esperar o paciente ter infarto. As pessoas que tem histórico familiar precoce são especiais, elas precisam de cuidados especiais, pois tem o risco da doença aumentado.

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